Janacek finalmente presente no Rio de Janeiro.

Três óperas em um ato: espetáculo em cartaz no CCBB mostra estilos diferentes e uma estrela em merecida ascensão no cenário operístico internacional
Luiz Paulo Horta

ÓPERA CRÍTICA
O espetáculo do ano está em cartaz (até 2 de dezembro) no CCBB: são três óperas em um ato, com direção-geral de André Heller-Lopes, mostrando obras de Holst, Chabrier e Janacek. Essas três peças curtas não têm relação entre si. “Savitri”, de Gustav Holst, apresenta conotações metafísicas — na verdade, um tema muito antigo, o do ser amado que luta com a Morte para tentar salvar a sua cara-metade. Inspirada num episódio do “Mahabarata”, o grande poema épico indiano, “Savitri” estreou em 1916, em Londres, e tem três personagens principais: a mulher, o marido moribundo e a Morte. Está muito bem servida, nesta montagem, pelas vozes de Liora Grodnikaite, Marcos Paulo e o excelente baixo que é Leonardo Neiva. Cenário sóbrio e eficiente. Bem diferente é a segunda ópera, de Chabrier, “Une éducation manquée” (“Uma educação incompleta”), que opta decididamente pelo cômico: um jovem casal aristocrático, na luademel, vê-se em palpos de aranha porque o conde, Gontram de Bois-Massif, foi educado em tudo, menos, digamos, nos “fatos básicos” da vida — e, por causa disso, chama às falas o seu tutor, que esqueceu desses detalhes importantes. Atuações muito boas de Flavia Fernandes (soprano) e Carolina Faria (meio-soprano). Mas tudo isso é simples preparação para a obra que encerra o programa — “O Diário do desaparecido”, de Leos Janacek. Entre outras virtudes, essa miniópera nos põe diante de um gênio da ópera moderna e nos faz lamentar amargamente o fato de não termos visto nunca, por aqui, obras tão poderosas como “Jenufa” ou “Katia Kabanova”. Janacek, que viveu de 1854 a 1928, é um caso raríssimo de desenvolvimento tardio — um obscuro compositor de província até que “Jenufa” estreou em Brno, em 1904. É de uma originalidade a toda prova — uma linguagem musical muito influenciada pelas tradições da sua Morávia natal. Nesse “Diário de um desaparecido”, somos confrontados com um discurso musical que oscila entre o canto e o recitativo, de uma força expressiva que nos joga de corpo inteiro nas situações dramáticas em que Janacek é um mestre.

Paixão avassaladora em obra autobiográfica

Trata-se de obra autobiográfica, terminada em 1919, em que o compositor retrata a paixão que lhe inspirou, desde o primeiro encontro, sua “musa” Kamila Stosslova. Escreve André Heller-Lopes, no texto do programa: “Nem a diferença de idades nem o fato de ser Kamila uma mulher casada e fiel ao marido impediram Janacek de apaixonar-se por essa judia de olhos escuros, dedicandolhe algumas de suas obras mais importantes”. Numa carta a Kamila, de 1924, o compositor escreve: “e a cigana morena do ”Diário de um desaparecido“ era você. Eis porque a peça tem tanto fogo e emoção”. É essa emoção que transborda no espetáculo do CCBB, graças a intérpretes privilegiados: o tenor Marcos Paulo, uma revelação, e a verdadeira “diva” que é Liora Grodnikaite. Essa soprano lituana, de 29 anos, já vai em plena carreira ascendente, no mundo desenvolvido, e é uma sorte podermos cruzar com ela antes que o sucesso a torne inatingível. Ela é a cigana que enfeitiça o jovem Janik — e quem não se deixaria enfeitiçar pela figura felina e misteriosa que está no palco do CCBB? A obra se estrutura como um ciclo de canções, em que o pobre Janik passa por todas as oscilações de temperamento, até finalmente concluir que seu destino é seguir a cigana. Tanto quanto a direção segura, fundamental para a qualidade do espetáculo é o piano de Linda Bustani — toda uma orquestra, perfeitamente sintonizado com a fantástica linguagem musical de Janacek.

Visita obrigatória.

 

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